1. Jesus na Samaria e a pedagogia do dom (Jo 4,35)

A leitura do trecho do Evangelho que narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana no poço de Jacó, nos ajuda a compreender o dom que é Jesus, e os dons que Ele nos oferece, por meio de um processo pelo qual se supera qualquer mal-entendido: a mulher samaritana não entende que água lhe pode dar Jesus, os discípulos não entendem de que alimento Jesus fala. A palavra se faz encontro graças a Jesus que leva a mulher a falar a verdade, a se abrir a uma nova dimensão e a acolher o imprevisto.
Jesus ajuda-nos a descobrir qual sede predomina em nossa vida: sede como necessidade de bens materiais, como carência de afeto e relacionamento ou sede como busca do Deus vivo. Nesse caminho (da Samaritana) se realiza uma dupla manifestação: a mulher é forçada a “revelar-se” a si mesma, e Jesus se revela à mulher e aos moradores todos do povoado. Os samaritanos acolhem o dom que é Jesus, mas Jesus continua a seguir seu caminho, porque o dom deve ser oferecido a todos. O trecho termina com a alegria do discipulado, um discipulado ao qual Jesus está educando e preparando aqueles que ele escolheu.
Eis, portanto, um belo e concreto exemplo de Jesus pedagogo e mestre, que sabe transformar qualquer situação, a partir de qualquer ponto de partida, em oportunidade de crescimento e de maturação.

Rosalba Manes

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“Levantem os olhos” (Jo 4,35)

Jesus na Samaria e a pedagogia do dom


O Díptico Joanino: Homem e mulher os criou

O capítulo 4 de João forma um díptico com o capítulo 3. Os dois capítulos contêm o programa de restauração interior que Cristo quer realizar no Israel de Deus, ferido pela divisão entre o norte (Samaria) e o sul (Judeia). Ele veio buscar e salvar o que estava perdido, veio para unir o que estava divido. Na verdade, como não poderia suportar um reino dividido contra si mesmo? (cf. Mt 12,25-26)? O desejo de Jesus de que o quarto Evangelho mostra claramente o ponto de encontro entre as duas seções principais (livro dos sinais e o livro da glória) – e que é representado pelos capítulos 11 e 12 – consiste em reunir na unidade os filhos de Deus dispersos (cf. Jo 11,52).
A manifestação da glória de Jesus aponta para “curar” as feridas presentes no coração do homem e em meio do povo. Lei? Sim (como os judeus)? Lei não (como os samaritanos)? Entre a estrita observância da lei e da vida sem regras, há uma alternativa: a vida segundo o Espírito, que não é uma simples fazer coisas! Se assim for, estaríamos na suposição de que é suficiente realizar obras…A vida no Espírito é um estilo, uma mentalidade, um pensamento, um processo de maturidade que torna possível o discernimento e as sábias escolhas. Um viver sem máscaras e sem muletas, um respirar profundamente, ordenando a própria liberdade ao palpitar de Deus que o Espírito Santo nos capacita a ouvir.
Um díptico, dizíamos… No capítulo 3 um homem, no capítulo 4 uma mulher; antes um judeu, logo uma samaritana; um marco noturno, um marco diurno; um personagem de quem se conhece o nome, uma pessoa não identificada, um personagem acreditado, um personagem não estimado; Nicodemos procura Jesus (ou ao menos assim parece! Sem dúvida, no entanto, o fazia, era uma busca tímida), a Samaritana é buscada por Jesus.

Após os primeiros versos iniciais (1-7a) Capítulo 4 apresenta três quadros:
A. O encontro e o diálogo de Jesus com a samaritana (7b-26)
B. O diálogo de Jesus e seus discípulos (27-38)
C. A permanência de Jesus com os samaritanos (39-42)

Temas (e campos semânticos) recorrentes no primeiro quadro: água / dom/ adorar
Temas (e campos semânticos) recorrentes no segundo quadro: comida/ plantar / recolher e enviar.
Temas (e campos semânticos) recorrentes no terceiro quadro: acreditar

A palavra para se tornar encontro, deve superar o mal-entendido e ironia, como acontece no texto. A samaritana não entende qual seja a água e o misterioso “dom” de que Jesus fala. Os discípulos não entendem qual comida que Jesus fala. A mulher que pensa que Jesus é um simples viajante ironiza sobre sua forma de comportar-se como se fosse maior do que Jacó… Quantos s “ataques” ao diálogo!

1 Quando Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele tinha mais discípulos e e batizava do que João
2- na verdade, ele não batizava, mas os seus discípulos -3 deixou a Judeia e voltou para a Galileia.
Jesus não gosta dos conflitos e fofocas que, no entanto, aos fariseus geralmente, lhes encantava alimentar. Deixa a Judeia e todas as polêmicas dos fariseus.

4 Para isso teria que passar Samaria.
“Teria”, não por motivos especiais, geográficos, senão para fazer a vontade do Pai, em obediência à vontade do Pai.
Após a queda do reino de Israel, na Samaria, os assírios estabeleceram colonos da Mesopotâmia (cf. 2 Reis 17). A população, portanto era mista e, ainda aderindo ao monoteísmo e a Lei Mosaica, praticando certo sincretismo. Os samaritanos não reconheciam como sagrados os Profetas e os Escritos. Eles construíram no Monte Garizim um templo para rivalizar com o de Jerusalém. Central para eles era a figura de Moisés. Ele, ou um profeta como ele, voltaria no fim dos tempos: se trata de Ta’ev, aquele que volta, que retorna.

A terra de José: o “dom” do pai Jacó

5 Chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, perto das terras Jacó tinha dado a seu filho José. 6 Ali existe o poço de Jacó.
A cidade de Samaria que Jesus visita de Jesus é um lugar que preserva a memória dos pais. De fato, ninguém começa sua história de maneira brutal; não se pode entrar no centro de uma coisa sem um digno segundo plano detrás. Por outra parte, não há nada humano, mesmo o que pensamos irreversivelmente perdido, que não seja sagrado. O texto fala da sacralidade de cada página da história e quer lembrar do que Deus “falou a nossos pais” (Lc 1,55, Cântico de Maria), a misericórdia concedida aos nossos pais (Lucas 1,72, cântico de Zacarias), o antigo juramento feito a Abraão, no início da história dos patriarcas ” de conceder-nos que livres do temor, arrancados das mãos de nossos inimigos, o sirvamos em santidade e justiça, em sua presença todos os nossos dias” ( Lc 1,73-75).
Em Samaria encontra-se o poço de Jacó, seu pai que está na terra doada a José, o filho favorito. A predileção nunca está longe de nós, apesar dos erros e falhas.
O lugar onde Jesus para, fala da história sagrada, recorda o legado de um pai que vai para o seu filho. Recorda a história de sofrimento de seu filho, invejado, vendido, exilado, e sem dúvida amado por Deus, exaltado e feito “oásis” para seus irmãos durante o tempo da fome (ver capítulo de José em Gênesis).
O “dom” feito por Jacó a José, o filho favorito, o homem que carrega consigo todas as feridas da fraternidade, lança sua fragrância e aquela terra – embora ferida pelo sincretismo que pareceria apagar todos os vestígios do sagrado e misturar no caos inclusive os gestos mais significativas e os valores mais altos – está imbuído de “dom” e torna-se um lugar de encontro com o Doador.

Jesus, cansado do caminho, estava sentado junto ao poço. Era a hora do meio-dia.
O evangelista pinta um retrato da Palavra feita carne. Se a palavra tem uma carne, isso pesa, está sujeita à fadiga, cansaço. Como todos os filhos de Adão, Jesus assume a fadiga que aumenta na sexta hora vez por causa do calor. O poço nestes casos é vida. Porém um poço não é apenas água, mas também é a imagem da Torá, da sabedoria… é, também, um lugar de encontros alegres entre os patriarcas e suas esposas (Gn 24, 29, Ex 2,16-21). É, enfim, a imagem utilizada por Jeremias para falar da traição cometida por Israel contra Deus: “Sim, dois males cometeu o meu povo: abandonaram-me, fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, cisternas rotas que não retêm água” (Jeremias 2,13).

O encontro com o “dom de Deus”: diálogo de Jesus com a samaritana e mútua revelação

7 Uma mulher da Samaria veio tirar água, e Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. 8 Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.
Vem a interlocutora de Jesus em busca de água. Momento surpreendente. Normalmente, ao meio-dia não se sai e muito menos se vai ao poço. É muito calor, o que também aumenta o peso do recipiente. Talvez a mulher não queira se encontrar com ninguém e está certa de que, a essa hora as outras mulheres estarão em casa e ela será a única a tirar água?
Mas Jesus não se mostra surpreendido pela hora e se dirige a ela para pedir-lhe de beber. Jesus está só, porque o evangelista nos diz que os discípulos não estão com ele, foram abastecer-se de alimentos. Jesus pede água. Esta é sua maneira de iniciar o dialogo.

9 A samaritana lhe respondeu: “Como? Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim, que sou samaritana? “. Os judeus, na verdade, não se comunicavam com os samaritanos.
A mulher, diante do pedido de Jesus fica surpresa. Não lhe parece estranho que tenha pedido água, mas o fato de que um homem judeu se tenha dirigido a uma mulher samaritana. Como é que, apesar de que haja uma linha divisória entre judeus e samaritanos, este homem não a vê e vai além, sem fazer-se algum problema? A samaritana não conhece a linguagem da familiaridade ou bem conhece outras linguagens confidenciais manchadas pela sombra da ambiguidade, por isso mostra-se relutante e desconfiada.

10 Jesus lhe respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: “Dá-me de beber”, seria tu mesma que lhe pedirias, e ele te daria água viva
Aqui vem o convite de Jesus a sair das tradições (endurecidas) dos homens, a cruzar as barreiras da aparência… Jesus está sentado no terreno que José recebeu como dom do Pai. E ali, fala do dom, não um dom dos homens, mas o “dom de Deus”. Convida a conhecer o dom e quem está falando, fazendo-lhe um pedido. A mulher não conhece Jesus. Claro, o está vendo pela primeira vez. Porém, não o conhece porque mostra resistência e porque, todavia, não sabe que aquele que está frente a ela não é um inimigo ou um sedutor, mas um dom. Sua aparência não vem sob o signo da disputa ou a “captura”, mas com o vocabulário de dar. Ele quer dar-lhe “água viva”, ou seja, a água da vida (expressão muito querida por João, que fala do pão da vida no c. 6, da luz da vida em 8,12). Portanto, uma água diferente daquela do poço. Há muito mais do que o meramente material…

11 “Senhor, disse ela, você não tem nada para tirar água e o poço é fundo. De onde você tira a água viva? 12 És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, onde ele bebeu, assim como seus filhos e seus rebanhos?”.
A mulher não sabe como abrir-se para essa nova linguagem, o vocabulário da surpresa que explode em sua existência em fuga… Mostra-se irônica com Jesus: De onde tiras a água sem a jarra? Além disso, queres dar dons, tens acaso um dom maior que o mesmo poço que Jacó dera a seu filho como um presente?

13 Jesus lhe respondeu: “Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, 14 mas, aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. A água que eu lhe der se converterá num manancial que brotará para a Vida eterna”.
Jesus lhe explica, agora que não se refere a água do poço. Esta não sacia a sede. Ele quer DOAR uma água incrível que sacia a sede e é inesgotável! Jesus, portanto, leva a mulher do plano material para o espiritual, das necessidades terrenas para a vida eterna, da imagem do inimigo ou predador a de alguém que dá gratuitamente, sem pedir nada em troca.

SEDE COMO MATERIAL NECESSIDADE
15 “Senhor, lhe disse a mulher, dá-me dessa água, para que não tenha mais sede e não necessite vir aqui para tirar.”
Ela se dá conta que já não se trata do poço, mas ainda não compreende. Por isso, Jesus começa suavemente a “descobrir” sua vida… para arrancá-la da superfície (e superficialidade!) e levá-la para a “profundidade” da sua vida.

SEDE COMO NECESSIDADE AFETIVA E RELACIONAL
16 Jesus lhe disse: “Vai, chamar o teu marido e volta aqui”.” 17 A mulher respondeu: “Eu não tenho marido”. Jesus disse: “Respondeste bem: “não tenho marido”, 18 de fato, tiveste cinco e aquele que agora tens não é teu marido; nisto disseste a verdade”.
Falamos de poços de pedra, falemos, agora, de poços de carne. Teu marido, aquele que deveria dar-te a água, onde está? A mulher descobre sua coleção de amores e decepções: para ela o amor do homem é uma cisterna rachada, perde água e tem que sempre buscá-la em outro lugar. História de dispersão… Jesus veio para reunir… e acumular.
Seis maridos, história que, a partir daquele número simbólico tão eloquente fala de algo incompleto… Seis como os recipientes de Cana, muito grandes e espaçosos, mas privadas de vinho. Pareceria amor o seu, mas falta a substância e, portanto, não sacia a sede…

SEDE COMO BUSCA DO DEUS VIVO
19 A mulher lhe disse: “Senhor, vejo que és um profeta. 20 Nossos pais adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar”.
A mulher reconhece que Jesus não é um inimigo, nem um malvado, nem um charlatão. Ele é um que conhece, sabe e fala tocando o “coração” dos problemas.
A profecia de Jesus “desencadeia” nela o pensamento de adoração, da relação com Deus. As palavras de Jesus – que têm olhos e leem além das aparências – lhe traz nostalgia de Deus, um estremecimento que lhe atravessa o espírito: Onde posso encontrar Deus de verdade? Quem tem razão: os judeus ou os samaritanos?

21 Jesus lhe respondeu: “Acredita em mim, vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai..
22 Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.
23 Mas vêm a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade; pois são estes os adoradores que o Pai deseja. 24 Deus é espírito, e quem o adora deve adorá-lo em espírito e verdade”.
Jesus diz à mulher que está surgindo um novo tempo, que não tem nada a ver com as antigas controvérsias. É o momento em que as “aparências” não resistem à prova de fogo. O tempo em que a primazia do lugar e as coisas é substituída pela primazia do ser e das relações. Adorar em espírito e em verdade (endiadi) significa abrir-se à revelação do Pai em Cristo e acolher a força divina que torna o homem capaz de um encontro filial com o Pai. Adorar em espírito e em verdade, é sair da falsa ideia de que Deus pode ser relegado a um lugar feito por mãos humanas, e tomar consciência que: Mais que lugares de adoração, Deus quer verdadeiros adoradores!

25 A mulher disse a Jesus: “Eu sei que o Messias, que se chama Cristo, está para vir. Quando vier, ele nos fará saber todas as coisas”.
Ela associa as palavras de Jesus à vinda do Messias. Há uma esperança em seu coração, sabe que tem um dom para receber e coisas novas para aprender. Jesus neste momento retira o véu e revela sua identidade:

26 Disse-lhe Jesus: “Sou eu, que falo contigo”.
De um judeu qualquer a Messias de Israel. É ele Ta’ev, aquele que retorna, ele que revela seu rosto a esta mulher ajudando-a a ver também, seu reflexo na água da consolação, num encontro que dá esperança e coloca asas.

A missão: os discípulos e o desafio de fazer-se dom

27Nisso chegaram os seus discípulos, e se admiraram de que estivesse falando com uma mulher. “No entanto, ninguém perguntou: O que ele queria ou o que estava falando com ela”. 28 A mulher deixou o cântaro, foi à cidade e disse a todos: 29 “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Messias”?
30 Eles saíram da cidade e foram ao seu encontro.
As surpresas não acabaram… Surpreenderam-se os discípulos que encontraram Jesus conversando com uma mulher.
A mulher, em troca, parte do poço sem ter tirado água, e inclusive sem o jarro. A mulher corredora vai à busca de outros, primeira evangelizadora itinerante do Messias.
Jesus moveu nela a consciência de todos os níveis de relações: consigo mesma (sede como necessidades materiais) com o próximo (sede como necessidade afetiva e relacional); com Deus (sede como busca do Deus vivo).
Ocupa-se da Samaritana, logo dos samaritanos, efetuando uma reconciliação entre o povo de Deus, marcado por uma remota fratura. Mas antes de dedicar-se ao grupo dos samaritanos, ocupa-se de seus discípulos, que são judeus, que estão com ele, mas que não sabem ler os acontecimentos e lhes falta discernimento.

31 E entretanto os discípulos lhe rogaram, dizendo: ”Mestre, come”. 32 Ele, porém, lhes disse: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”.
33 Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, “alguém algo de comer”?
34 Jesus disse-lhes: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”.
Também os discípulos estão preocupados com as necessidades materiais: a mulher estava obcecada pela água, eles pelos alimentos. Jesus lhe fala de outro alimento, de natureza espiritual, a vontade do Pai que consiste em cumprir sua obra. E qual é a obra do Pai, senão a de salvar a todos?

35 Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.
36 E o que ceifa recebe seu salário, e ajunta fruto para a Vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem.
37 Porque nisto é verdadeiro o ditado: “que um é o que semeia, e outro o que ceifa”.
38 Eu vos enviei a ceifar onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.
Os discípulos não sabem olhar para cima: não veem a obra do Pai, lhes falta o discernimento, não se deixam, todavia, “abrasar” pelo fogo do Espírito. Estão ainda frios e incapazes de sentir a urgência de anunciar a salvação aos distantes… Todavia não descobriram que o segredo de sua alegria está na colheita, o que não é sinônimo tanto de julgar, quanto de coletar, unir, reconciliar…
Os discípulos, todavia, tem que aprender que evangelizar é ir além de tudo o que está limitado: não há judeu, nem grego (e poderíamos acrescentar “samaritano”), não há escravo nem livre, não há homem ou mulher (Gal 3, 28).
Devem aprender que a missão é um nascimento que dá alegria: 21 A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo.22 Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará.23 E naquele dia nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu Nome, ele vo-lo há de dar. 24 Até agora nada pedistes em meu Nome; pedi, e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra. (Jo 16,21-24). A missão é a formação prática do dom que satisfaz o coração!

Os samaritanos: acolher o dom-jesus

39 E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho feito. 40 Indo, pois, ter com ele os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles; e ficou ali dois dias. 41 E muitos mais creram nele, por causa da sua palavra. 42 E diziam à mulher: “Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo”.
Os samaritanos estão tão impactados por Jesus, que querem que ele fique com eles. Esse estar com Ele lhes permite experimentar a alegria do discipulado: saber que Jesus é o Salvador do mundo, não de uma parte da humanidade, mas de todos os homens. Esta é a boa notícia cristã que deve brotar de nossas comunidades! Devemos almejar a salvação de todos os que encontramos. Inclusive do irmão que está residindo ao meu lado. Realmente quero que a vida de meus irmãos seja salvada, isto é, plena, preenchida, realizada?
Para os samaritanos em Jesus encontra-se o dom de Deus. Nele se manifesta “a graça de Deus que traz a salvação a todos os homens, que nos ensina a rejeitar a impiedade e as paixões mundanas, e a viver com sobriedade, justiça e piedade neste mundo” (Tito 2,11-12) . Ele, estabelecendo um diálogo pessoal com o homem, chamando-o pelo nome, convocando-o ao seguimento, lê o coração para convidar a dar a luz das verdades mais profundas sobre si mesmo, exercendo uma verdadeira arte maiêutica.
Os samaritanos aprendem que a Palavra de Deus não rompe com violência na vida humana, mas que entra na ponta dos pés, na dimensão do cotidiano. Os samaritanos acolhendo de coração a visita de Jesus, o reconhecem não apenas como “propriedade” de Israel (o Messias de Israel), mas como “tesouro” (cf. Mt 6,21) de todos os homens (como o “salvador do mundo”).

Para reflexão… ante o Amado

A. Onde está seu coração neste momento de sua vida? Que sentimentos o habita?
B. Quais são as “manias” que te isolam? Que qualidade têm suas relações com os demais? Que “vaso” você tem que deixar?
C. Que imagem de Deus sente mais próxima? De que está mais longe? Em que poço se deixa encontrar?
D. O que significa para você “ceifar”?

Assuntos do coração…

* “… A alegria e dor brotam a partir de uma única fonte, o coração do coração”. O coração não é mais que uma fila de casas, cada vez mais pequenas, de uma se entra na outra através de uma porta fechada e escadas que descem. No total, sete casas. O coração é do coração é a sétima, a mais difícil de alcançar, mas a mais brilhante, porque suas paredes são de cristal. Alegria e dor provem dessa casa e são a chave para entrar. Alegria dor e choram as mesmas lágrimas, são a pérola da vida, e o que importa na vida é manter intacto esse pedacinho de coração, tão difícil de alcançar, tão difícil de escutar, tão difícil de dar, porque ali, tudo é verdade ” (A. D’AVENIA, Cosas que ninguno sabe, p. 221).

* “Quem ama deve, portanto, cruzar aquela fronteira que o cercava em suas próprias limitações. Por isso se diz do amor que derrete o coração: O que foi dissolvido já não está confinado nos próprios limites” (Tomás de Aquino, Comentario sobre las Sentencias de Pedro Lombardo III XXV, I, I, 4 m).
* “Amar significa… ser vulnerável. Seja o que seja que é importante para ti, teu coração, mais cedo ou mais tarde terá que sofrer por tua causa, e talvez até mesmo fazer-se pedaços. Se quiser garantir que ele permaneça intacto, não deve doá-lo para ninguém…Protegê-lo envolvendo-o com cuidado em passatempos e pequenos luxos; evitando qualquer implicação; fechá-lo com cadeado no baú ou no caixão do teu egoísmo. Porém, nesse caixão – salvá-lo na obscuridade, imóvel, ao vazio – ele vai mudar: não se fará pedaços, vai ser inquebrável, impenetrável, irredimível. A alternativa para o risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar, além do céu, onde se pode estar perfeitamente salvo de todos os perigos e perturbações do amor é o inferno” (CS Lewis, Los Cuatro Amores. Afecto, amistad, eros, caridad, Jaca Book, Milán 1982 ,. p 153).

* “A única solução para o mistério do sofrimento e da morte é a confiança em seu amor… Sabe o que faz o pelicano quando seus filhotes estão com fome e não tem alimento para oferecer? Machuca seu peito com o bico longo e faz brotar sangue nutritivo para os pequenos, que bebem da ferida como uma fonte. Como Cristo fez conosco… Derrotou nossa morte de pequenos famintos de vida, dando seu sangue… seu dom é mais forte que a morte…só esse amor vence a morte. Quem o recebe e o doa, não morre, mas nasce duas vezes… Até Deus derrama seu sangue: uma chuva interminável de amor vermelho, o sangue que molha o mundo, cada dia, no intento de nos dar vida…” (A. D’AVENIA Blanco como la leche, roja como la sangre, p. 228).

* ”19 Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam.20 Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.21 Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.22 A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;23 Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, “portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas”! (Mt 6,19-23).

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